O mercado brasileiro de fusões e aquisições (M&A) movimentou US$ 32,557 bilhões no primeiro semestre de 2026, um crescimento de 15% em relação ao mesmo período do ano anterior — mesmo com o número de transações caindo cerca de 35%, para 593 negócios fechados entre janeiro e junho.
O levantamento, realizado pela consultoria Aon em parceria com a TTR Data e a Datasite, revela uma mudança estrutural no perfil do mercado brasileiro de M&A: menos operações, porém mais robustas, concentradas em ativos estratégicos e de maior porte.
Um mercado mais seletivo, não mais fraco
À primeira vista, a queda de mais de um terço no número de transações poderia sugerir um mercado em retração. Os números de valor movimentado, porém, contam uma história diferente: investidores não deixaram de fazer negócios, mas passaram a concentrar capital em operações maiores e mais estratégicas, em vez de pulverizar recursos em um volume maior de transações menores.
Segundo André Nogueira, líder de M&A and Transaction Solutions para o Brasil na Aon, o desempenho do semestre “indica um mercado brasileiro mais seletivo, porém concentrado em operações de maior porte, o que contribuiu para o aumento do capital mobilizado mesmo diante da redução no número de transações”.
Esse padrão de comportamento — menos deals, tickets maiores — é consistente com o que especialistas do setor vêm descrevendo como uma fase de maturidade do mercado de M&A brasileiro.
Depois de anos marcados por juros elevados e forte aversão a risco, que dificultaram negociações e represaram um volume relevante de operações, o mercado parece estar convertendo esse pipeline acumulado em transações mais bem estruturadas, com due diligence mais rigorosa, estratégias mais claras de geração de valor e maior disciplina financeira tanto de compradores quanto de vendedores.
Onde está concentrado o capital
Do total movimentado no semestre, o mercado tradicional de fusões e aquisições liderou em volume financeiro, com 297 transações somando US$ 20,333 bilhões.
Na sequência vieram as operações de private equity, com 41 negócios e valor agregado de US$ 6,528 bilhões, seguidas por aquisições de ativos, que responderam por 151 operações e US$ 4,424 bilhões movimentados.
O segmento de venture capital, historicamente mais sensível a ciclos de juros altos, registrou 106 transações, somando US$ 1,272 bilhão — volume mais modesto, mas que ainda assim confirma atividade relevante mesmo em um segmento tradicionalmente mais cauteloso em cenários de maior custo de capital.
Levantamentos anteriores do mesmo tipo de pesquisa já vinham sinalizando essa tendência ao longo do ano: o primeiro trimestre isolado já havia registrado o melhor desempenho para o período desde 2021, segundo dados da Seneca Evercore, com operações represadas durante o período de juros mais altos voltando à mesa de negociação à medida que o cenário de custo de capital começou a se tornar mais favorável.
Setores em destaque na disputa por consolidação
Entre os setores mais ativos no radar do mercado de M&A brasileiro, o setor imobiliário liderou o número de transações no primeiro trimestre do ano, seguido de perto por internet, software e serviços de tecnologia, além de bancos e instituições financeiras.
Esse padrão setorial reflete tanto o momento specific do mercado imobiliário brasileiro — impulsionado pela expansão de programas habitacionais e pela retomada gradual do crédito — quanto a continuidade de um movimento mais estrutural de consolidação no setor de tecnologia, historicamente um dos mais ativos em operações de fusão e aquisição no país, puxado por empresas de software com receita recorrente, fintechs e healthtechs.
Por que a Selic em queda tende a acelerar ainda mais o mercado
Um fator que já vem sendo apontado por especialistas como potencial acelerador do mercado de M&A para o segundo semestre é justamente a trajetória de queda da taxa Selic, iniciada em março e reforçada com o corte mais recente do Banco Central.
Juros mais baixos tendem a reduzir o custo de capital para operações de aquisição, sustentar múltiplos de avaliação mais altos e viabilizar estruturas de financiamento mais complexas — fatores que, historicamente, favorecem tanto o apetite de compradores estratégicos quanto o interesse de fundos de private equity por operações alavancadas.
Além disso, empresas mais endividadas — que em um cenário de juros elevados gastam proporcionalmente mais recursos com o serviço da dívida, restringindo investimento em crescimento orgânico e inorgânico — tendem a voltar à mesa de negociação com mais disposição à medida que o custo do crédito recua, seja como alvos de aquisição por parte de concorrentes mais capitalizados, seja como compradoras que retomam planos de expansão inorgânica represados durante o período de maior aperto monetário.

O que empresas em processo de consolidação devem observar
Para empresas que avaliam processos de fusão, aquisição ou captação de investimento neste momento, o padrão observado no mercado brasileiro reforça um ponto importante: compradores mais capitalizados estão mais seletivos, e não necessariamente mais generosos.
Isso significa que empresas que buscam ser adquiridas, ou que avaliam captar aportes de fundos de private equity e venture capital, tendem a enfrentar processos de diligência mais rigorosos e critérios mais exigentes de geração de caixa, sinergia operacional e governança corporativa do que em ciclos anteriores de maior liquidez e menor seletividade.
Para compradores estratégicos, o cenário atual — combinando pipeline represado de operações, custo de capital em trajetória de queda e maior disciplina de mercado — tende a ser favorável para negociações bem preparadas, especialmente para empresas capazes de demonstrar clareza estratégica sobre a tese de aquisição e capacidade real de capturar sinergias no pós-negócio, e não apenas de pagar o preço de mercado por um ativo disputado.
Um segundo semestre para acompanhar de perto
Com o pipeline represado dos últimos anos ainda se convertendo em negócios concretos, e com o ciclo de corte de juros do Banco Central em curso, o mercado de M&A brasileiro entra na segunda metade de 2026 em uma trajetória que analistas classificam como de retomada qualitativa — não necessariamente de volta ao volume elevado de transações observado em anos de maior liquidez, mas de maturidade crescente na forma como negócios são estruturados, negociados e concluídos.
Para empresas, investidores e assessores financeiros, acompanhar de perto essa combinação entre seletividade, disciplina financeira e custo de capital em queda deve ser central para o planejamento estratégico de fusões, aquisições e captação de investimento pelo restante do ano.
Fontes:
Exame — Mercado de fusões e aquisições no Brasil já movimentou US$ 30 bilhões em 2026
Valore Brasil — Mercado de M&A no Brasil em 2026: perspectivas e oportunidades