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O que o caso da Costa Esmeralda revela sobre saúde e expansão urbana

Porto Belo, cidade do litoral norte de Santa Catarina que lidera os rankings nacionais de venda de imóveis, vai ganhar seu primeiro hospital — e não um hospital qualquer.

O empreendimento, desenvolvido pela Thozen Construtora em parceria com a Clínica Via Imagem, prevê investimento total de R$ 200 milhões e vai se tornar o maior complexo hospitalar da região conhecida como Costa Esmeralda.

A primeira etapa do projeto, uma clínica de diagnóstico por imagem, deve entrar em operação nos próximos seis meses, antes mesmo do início das obras da estrutura hospitalar propriamente dita, previstas para começar ainda em 2026.

Um hospital nascido da pressão demográfica, não de planejamento público

O caso de Porto Belo ilustra um fenômeno que vem se repetindo em diferentes cidades litorâneas brasileiras em expansão acelerada: a infraestrutura de saúde chegando como resposta a um crescimento populacional e imobiliário que já aconteceu, em vez de anteceder esse crescimento.

Segundo dados do IBGE, a população de Porto Belo cresceu 72% na última década, saltando de 16 mil para mais de 27 mil moradores fixos — sem contar o contingente sazonal de turistas que multiplica esse número nos meses de verão.

Até o anúncio do novo complexo, a cidade não contava com um hospital próprio, dependendo de estruturas de saúde em municípios vizinhos para atendimentos de maior complexidade.

Esse padrão — expansão imobiliária acelerada, seguida de investimento privado em saúde para suprir uma lacuna assistencial que o poder público não conseguiu antecipar — tende a se repetir em outras cidades do litoral catarinense e de outras regiões do país que vivem ciclos semelhantes de valorização imobiliária, reforçando a leitura de que a saúde privada funciona, cada vez mais, como um investimento que segue de perto o mapa da expansão urbana e imobiliária brasileira, e não apenas o mapa demográfico tradicional.

O que o complexo vai oferecer

Quando estiver em capacidade máxima, prevista para 2029, o hospital contará com 30 leitos de internação, 10 leitos de UTI, seis salas cirúrgicas — duas delas dedicadas a pequenos procedimentos —, pronto atendimento 24 horas, ambulatório, laboratório, banco de sangue e centro de diagnóstico por imagem completo, com tomografia, ressonância magnética, mamografia, densitometria óssea e ultrassonografia.

A capacidade projetada é de atendimento a mais de 200 pacientes por dia, distribuídos em três consultórios simultâneos. O empreendimento deve gerar cerca de 150 postos de trabalho diretos apenas na operação hospitalar, sem contar os empregos gerados durante a fase de construção civil.

Um detalhe relevante do projeto é a intenção declarada de firmar convênio com o Sistema Único de Saúde (SUS), o que diferencia essa iniciativa de empreendimentos hospitalares privados voltados exclusivamente ao público de plano de saúde ou particular — modelo mais comum em investimentos hospitalares ligados a bairros de alta renda em grandes centros urbanos.

Por que investidores olham para infraestrutura de saúde em cidades de médio porte

O caso de Porto Belo também é revelador de uma tese de investimento que vem ganhando força entre incorporadoras e investidores imobiliários: infraestrutura de saúde de qualidade funciona como vetor de valorização de uma região, e não apenas como serviço reativo à demanda populacional já instalada.

Cidades que recebem hospitais privados de grande porte tendem a atrair moradores permanentes, não apenas investidores especulativos, o que gera demanda mais estável por moradia e eleva o patamar de preço do metro quadrado na região no médio prazo — lógica que já orienta decisões de investimento semelhantes em outras cidades litorâneas em expansão no Brasil.

Esse raciocínio também explica por que o anúncio do hospital de Porto Belo não é um evento isolado: a cidade já havia atraído, meses antes, um aporte de R$ 250 milhões da chinesa Neusoft Medical Systems para fortalecer a produção local de equipamentos de diagnóstico por imagem — sinal de que a região está se consolidando, aos olhos de investidores nacionais e internacionais, como um polo emergente de infraestrutura de saúde em Santa Catarina, e não apenas como destino turístico e imobiliário.

O modelo de parceria como caminho para viabilizar projetos de grande porte

Do ponto de vista de estrutura de negócio, o projeto de Porto Belo também ilustra um modelo que vem se tornando mais comum na expansão de infraestrutura hospitalar privada fora dos grandes centros: a parceria entre uma incorporadora, responsável pela construção e pelo investimento imobiliário, e uma operadora de saúde especializada, responsável pela operação clínica e assistencial.

Esse modelo permite que empreendimentos hospitalares de grande porte sejam viabilizados em cidades de médio porte, que dificilmente atrairiam sozinhas o investimento de uma grande rede hospitalar nacional, mas que se tornam atrativas quando combinadas a um projeto imobiliário maior, capaz de diluir parte do risco financeiro entre diferentes frentes de receita — consultórios, diagnóstico por imagem, e eventualmente espaços de gastronomia e lazer integrados ao complexo.

O que o setor de saúde e o mercado imobiliário podem aprender com o caso

Para investidores em saúde, o caso de Porto Belo reforça a importância de olhar para cidades de médio porte em franca expansão populacional como oportunidade de investimento em infraestrutura assistencial — mercados menos disputados do que as capitais, mas com demanda reprimida real e crescente.

Para incorporadoras e construtoras, o projeto reforça que infraestrutura de saúde deixou de ser apenas um item de conveniência em empreendimentos residenciais de grande porte e passou a ser tratada como ativo estratégico próprio, capaz de gerar receita e valorização de forma independente.

Para o poder público municipal e estadual, o episódio também levanta uma reflexão importante: em muitos casos, é o investimento privado — e não o planejamento público antecipado — que está definindo onde e quando novas estruturas de saúde de grande porte serão construídas no Brasil, um padrão que tende a se repetir enquanto o país seguir vivendo ciclos acelerados de expansão imobiliária em regiões historicamente carentes de infraestrutura assistencial robusta.

Fontes

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