Duas estudantes de biotecnologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) desenvolveram um retardante de chamas biológico voltado ao combate de incêndios florestais.
Batizado de BIODEFENSER®, o produto venceu as etapas regional e nacional do Hult Prize 2026 uma das maiores competições de empreendedorismo social e inovação do mundo, voltada a estudantes universitários e é hoje a única equipe brasileira classificada para a fase internacional da competição, cujo resultado final sai em setembro.

Uma solução natural para um problema que só cresce
Mariah Fraulo Cavalcante e Taciane Beatriz Ferreira, autoras do projeto, afirmam que o BIODEFENSER® é produzido a partir de um composto natural, formulado para conter o fogo sem agredir o meio ambiente, uma diferenciação relevante em relação aos retardantes químicos tradicionais usados no combate a incêndios florestais, que frequentemente carregam impacto ambiental residual sobre solo, vegetação e cursos d’água próximos à área de aplicação.
Segundo as estudantes, a formulação cria uma barreira térmica que reduz a propagação e a intensidade das chamas e, após a aplicação, permanece ativa sobre o solo e a vegetação, formando uma camada bioativa estável que ajuda a dificultar o surgimento de novos focos e favorece a recuperação ambiental da área atingida.
Nos testes laboratoriais realizados até o momento, o produto conseguiu apagar chamas em ambiente controlado.
Resultado que já é considerado promissor pela equipe, mas que ainda depende de validação em escala real antes de qualquer aplicação comercial ou operacional.
A próxima etapa do projeto prevê justamente um piloto em escala maior, com testes de campo que devem ser realizados em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Florestas, responsável por avaliar o aspecto residual da substância no ambiente, além de ensaios em câmara de combustão a serem conduzidos na Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Da bolsa de iniciação científica ao pedido de patente
O percurso do BIODEFENSER® ilustra bem como projetos de inovação de alto potencial nascem, com frequência, dentro da própria estrutura acadêmica de fomento à pesquisa.
A iniciativa começou no fim de 2024, durante o Health Innovation PUC-PR (HIPUC), promovido pela Escola de Medicina e Ciências da Vida da universidade.
A proposta foi selecionada como pesquisa do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (PIBITI) da PUC-PR, sob orientação do professor Luiz Fernando Bianchini.
O projeto ganhou ainda mais tração quando Mariah conquistou o primeiro lugar no Programa Institucional de Bolsas de Empreendedorismo e Pesquisa (PIBEP) da universidade, o que garantiu um investimento inicial de R$ 10 mil para compra de materiais e equipamentos, recurso relativamente modesto, mas que foi suficiente para sustentar a fase de desenvolvimento e validação inicial que, meses depois, levaria o produto a vencer as etapas nacionais do Hult Prize.
A equipe já iniciou os procedimentos para solicitar patente do produto tanto no Brasil quanto no mercado internacional, ao mesmo tempo em que trabalha para concluir os testes de formulação e confirmar a eficácia do retardante fora do ambiente controlado de laboratório.
O tamanho do problema que o projeto busca endereçar
O timing do projeto não poderia ser mais relevante para a realidade brasileira.
Entre janeiro e abril de 2026, o Brasil registrou 10.442 focos de incêndio, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), número que reforça a dimensão de um problema que combina fatores climáticos, uso do solo, expansão de fronteira agrícola e, cada vez mais, eventos climáticos extremos associados às mudanças climáticas globais.
Incêndios florestais no Brasil não afetam apenas biomas e unidades de conservação: geram impacto direto sobre operações agrícolas, infraestrutura de energia e telecomunicações, rodovias, e sobre o próprio setor de seguros, que absorve parte relevante do prejuízo financeiro decorrente desses eventos.
É justamente nesse cruzamento entre inovação tecnológica e gestão de risco que projetos como o BIODEFENSER® ganham relevância para além do meio acadêmico.
Empresas de agronegócio, mineração, energia e infraestrutura, setores com ativos físicos expostos a risco de incêndio florestal, especialmente em regiões de vegetação nativa ou próximas a áreas de conservação, têm interesse direto em soluções de contenção de fogo mais eficazes e, sobretudo, mais sustentáveis do que os retardantes químicos tradicionais, cujo uso em grande escala já é alvo de restrições crescentes em diferentes países por conta do impacto ambiental associado.
O Hult Prize como vitrine internacional para inovação brasileira
O Hult Prize 2026 reuniu 18 mil equipes de universidades ao redor do mundo, das quais apenas 90 avançaram para a fase seguinte da competição.
Desse grupo, 20 equipes avançarão para a etapa realizada em Londres, e oito disputarão a premiação final — com o resultado previsto para setembro.
O fato de o BIODEFENSER® ser a única equipe brasileira remanescente nessa fase da competição é, em si, um indicativo da qualidade técnica do projeto frente a milhares de propostas de inovação social submetidas globalmente, e reforça um movimento mais amplo de startups de origem acadêmica brasileira ganhando visibilidade internacional em competições de empreendedorismo e tecnologia aplicada a problemas ambientais.
O que o caso sinaliza para empresas e investidores
Para empresas que lidam com risco de incêndio florestal como parte de sua operação, do agronegócio a seguradoras, passando por concessionárias de energia e mineradoras com ativos em áreas de vegetação nativa, o desenvolvimento do BIODEFENSER® é um lembrete de que soluções de baixo custo relativo, nascidas dentro de programas de inovação universitária, podem endereçar problemas operacionais de alto impacto financeiro, desde que consigam avançar da fase de laboratório para testes de campo validados e, eventualmente, para produção em escala comercial.
Esse tipo de projeto também ilustra o papel que parcerias entre universidades, institutos de pesquisa como a Embrapa e o setor produtivo podem desempenhar na maturação de tecnologias ambientais: sem o apoio de programas de bolsa e sem o interesse declarado de instituições de pesquisa em conduzir os próximos testes de campo, dificilmente uma solução como essa conseguiria sair do estágio conceitual dentro do prazo necessário para ter relevância prática diante da urgência do problema que busca resolver.
Um projeto para acompanhar
Com a fase final do Hult Prize 2026 prevista para setembro, o desfecho da trajetória de Mariah e Taciane no torneio deve trazer, nos próximos meses, uma nova atualização sobre o avanço do BIODEFENSER®, seja com a conquista da premiação internacional, seja com o andamento dos testes de campo junto à Embrapa Florestas e à UFPR.
Para o ecossistema brasileiro de inovação, o caso reforça que soluções ambientais de alto impacto seguem nascendo dentro das universidades do país, muitas vezes sustentadas por recursos relativamente modestos de fomento à pesquisa, e que o desafio, a partir daqui, está em transformar esse tipo de iniciativa em tecnologia validada e disponível em escala para quem mais precisa dela.
Fontes
- Agência Brasil (EBC) — Brasileiras desenvolvem produto para conter incêndios florestais
- Canal Rural — Estudantes da PUC-PR desenvolvem retardante biológico contra incêndios florestais