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Engenheiro da Linha 17-Ouro fala sobre desafios da obra

Depois de mais de uma década de idas e vindas, projetos retomados, contratos rescindidos e prazos revistos, a Linha 17-Ouro, o monotrilho que liga o Aeroporto de Congonhas à Estação Morumbi, na Zona Sul de São Paulo, entrou em operação assistida em 2026, conectando passageiros à rede de trens da capital paulista em um trajeto de 6,7 quilômetros e oito estações.

Por trás da conclusão de uma obra desse porte está uma engenharia de bastidores pouco discutida fora do canteiro: o equilíbrio entre cronograma, licenciamento ambiental, gestão de risco e sustentabilidade operacional que define se um empreendimento de infraestrutura urbana sai do papel dentro do prazo ou se arrasta por anos, como já aconteceu com a própria Linha 17 em ciclos anteriores.

Para entender esse lado técnico da obra, o Sun IT conversou com Francisco Robervan Machado de Sousa, engenheiro civil e Assistente de Engenharia Pleno do Agis Consórcio na Linha 17-Ouro, responsável por parte das obras civis remanescentes do monotrilho.

Com experiência direta na rotina de um canteiro de obras de grande porte em ambiente urbano, Francisco falou sobre os principais desafios de conciliar prazo e licenciamento ambiental, as ferramentas de gestão de risco que considera indispensáveis, o papel da tecnologia no acompanhamento das atividades e as soluções que vêm sendo adotadas para reduzir o impacto ambiental e o custo operacional da obra. Confira a entrevista na íntegra.

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“O principal desafio é conciliar o cronograma físico da obra com as condicionantes ambientais”

Sun IT: Quais são os principais desafios enfrentados na execução de uma obra de infraestrutura urbana como a Linha 17-Ouro, especialmente no que diz respeito ao cumprimento de prazos?

Francisco Robervan: “O principal desafio é conciliar o cronograma físico da obra com as condicionantes e exigências do licenciamento ambiental. Para isso, é importante integrar planejamento, engenharia e meio ambiente desde o início, prevendo liberações, controles e possíveis interferências ambientais que possam impactar o prazo e a execução dos serviços.”

A resposta resume um problema clássico da engenharia civil brasileira, mas que ganha contornos ainda mais complexos em obras de infraestrutura de transporte dentro de grandes centros urbanos: o cronograma de execução raramente depende apenas da capacidade técnica e operacional da construtora.

Licenças ambientais, autorizações de órgãos municipais e estaduais, interferências com redes de utilidades já instaladas, como as de energia elétrica (historicamente um dos pontos de atrito em obras de monotrilho em São Paulo), e a necessidade de conciliar a obra com a rotina de bairros densamente povoados formam um conjunto de variáveis que, se não forem antecipadas desde a fase de planejamento, tendem a se transformar em gargalos capazes de atrasar as entregas.

A visão de Francisco reforça um princípio que vem ganhando espaço entre equipes de engenharia mais maduras: tratar a área ambiental como parte do planejamento desde o primeiro dia, e não como uma etapa posterior de conformidade a ser resolvida depois que o projeto de engenharia já está fechado.

Essa integração precoce entre planejamento, engenharia e meio ambiente é o que permite antecipar exigências, mapear interferências e reduzir o risco de paralisações não previstas ao longo da execução.

Gestão de risco: da APR aos drones, mas sem abrir mão da análise técnica

Sun IT: Quais ferramentas de gestão de risco você considera essenciais no dia a dia de uma obra desse porte, e qual o papel de tecnologias mais recentes, como IA e drones, nesse processo?

Francisco Robervan: “Considero essenciais ferramentas como APR, PGR, inspeções de campo, checklists e análise de incidentes e não conformidades. A IA, drones e recursos de BIM também podem auxiliar na identificação de riscos e no acompanhamento das atividades. Porém, essas tecnologias devem servir como apoio à tomada de decisão, sem substituir a análise técnica e a atuação da equipe em campo.”

A resposta traz um recado importante para o setor de construção civil em um momento de forte pressão por digitalização de processos: tecnologia é ferramenta de apoio, não substituto da engenharia.

A Análise Preliminar de Risco (APR) e o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) seguem como pilares tradicionais e obrigatórios da gestão de segurança em canteiros de obra no Brasil, complementados por inspeções de campo e checklists — instrumentos que dependem, fundamentalmente, do julgamento técnico de profissionais experientes para funcionar bem.

Já os recursos mais recentes, como a modelagem BIM (Building Information Modeling), drones para inspeção aérea de estruturas de difícil acesso e ferramentas de inteligência artificial aplicadas à identificação de padrões de risco, entram como uma camada adicional de apoio, capaz de ampliar a capacidade de monitoramento da obra.

Eles não eliminam, contudo, a necessidade de decisão técnica humana, especialmente em ambientes de alta complexidade, a exemplo de uma obra elevada de monotrilho em pleno tecido urbano de São Paulo.

Essa combinação entre instrumentos consolidados de segurança do trabalho e tecnologias emergentes de apoio à decisão parece ser, na visão do engenheiro, o caminho mais equilibrado para gerir riscos em obras de grande escala sem depender excessivamente de nenhuma ferramenta isolada.

Resíduos de construção: economia que nasce da gestão ambiental

Sun IT: Como a gestão de resíduos e a escolha de materiais impactam os custos e a segurança de uma obra como essa?

Francisco Robervan: “A utilização de materiais de menor impacto, quando compatíveis com as especificações técnicas, e uma boa gestão dos RCC contribuem para reduzir impactos ambientais, acidentes e custos. A segregação, o reaproveitamento e a destinação correta dos resíduos também diminuem gastos com transporte e descarte, além de reduzir riscos de autuações, retrabalhos e paralisações.”

O ponto levantado por Francisco conecta diretamente sustentabilidade e resultado financeiro — uma associação que ainda gera resistência em parte do setor de construção civil, mas que a experiência prática de canteiro tende a confirmar.

A gestão de Resíduos da Construção Civil (RCC) não é apenas uma exigência regulatória a ser cumprida. Quando bem estruturada — com segregação correta na origem e reaproveitamento de materiais sempre que tecnicamente viável —, ela reduz custos logísticos de transporte e descarte. Ao mesmo tempo, diminui a exposição da obra a autuações ambientais capazes de gerar paralisações, que representam o pior cenário possível para o cronograma de qualquer empreendimento de infraestrutura urbana.

Água e efluentes: soluções que reduzem consumo e risco ambiental

Sun IT: Quais soluções têm se mostrado mais viáveis para o consumo de água e o tratamento de efluentes em canteiros de obra?

Francisco Robervan: “Entre as soluções mais viáveis estão a captação de água de chuva, sistemas de decantação, separação de água e óleo, filtração e tratamento de efluentes, conforme a característica de cada atividade.

A medição do consumo e o reuso para atividades não potáveis permitem reduzir a demanda por água nova e, consequentemente, os custos, além de diminuir os riscos de lançamentos inadequados e impactos ambientais.”

A resposta detalha um conjunto de soluções técnicas que já vêm se consolidando como padrão em canteiros de obra mais maduros do ponto de vista ambiental: captação de água da chuva para uso não potável; sistemas de decantação e separação de água e óleo, essenciais em atividades que envolvem maquinário pesado e risco de contaminação por hidrocarbonetos; além de filtração e tratamento de efluentes ajustados à realidade de cada frente de serviço.

A medição contínua do consumo de água, por sua vez, funciona como ferramenta de gestão que permite identificar desperdícios e ajustar processos em tempo real, reduzindo tanto o custo operacional quanto o risco de lançamentos inadequados de efluentes no ambiente urbano — ponto especialmente sensível em obras que atravessam áreas densamente povoadas, como é o caso da Linha 17-Ouro.

O que fica da conversa

A entrevista com Francisco Robervan Machado de Sousa reforça um retrato pouco explorado das grandes obras de infraestrutura urbana brasileira: o de que a diferença entre um cronograma cumprido e uma obra que se arrasta por anos frequentemente está menos na disponibilidade de tecnologia de ponta e mais na capacidade da equipe de engenharia de integrar, desde o início, planejamento técnico, gestão ambiental e gestão de risco como partes de um mesmo processo, e não como etapas isoladas e sequenciais.

Para o setor de construção e infraestrutura, o relato de quem está na ponta da execução é um lembrete valioso de que sustentabilidade, segurança e eficiência de custo, longe de serem objetivos concorrentes, tendem a caminhar juntos quando a obra é bem planejada desde o primeiro dia.

Entrevista concedida ao Sun IT por Francisco Robervan Machado de Sousa, Assistente de Engenharia Pleno do Agis Consórcio — Linha 17-Ouro, engenheiro civil de formação

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