Em 2020, o Brasil assumiu um dos compromissos mais ambiciosos de sua história recente em infraestrutura: universalizar o acesso à água potável e à coleta e tratamento de esgoto até 31 de dezembro de 2033, por meio do Novo Marco Legal do Saneamento Básico (Lei nº 14.026/2020).
Seis anos depois, um levantamento divulgado em julho de 2026 pelo Instituto Trata Brasil mostra um cenário de duas faces: os investimentos avançaram de forma consistente, mas o ritmo ainda está longe do necessário para cumprir a meta dentro do prazo.

O que os números mostram até agora
Segundo o estudo, os investimentos em saneamento básico cresceram 51% desde a aprovação do Marco Legal. Em 2024, último ano com dados consolidados, o setor recebeu R$ 29,1 bilhões em aportes — um salto real, mas que ainda deixa o país aquém do ritmo exigido.
Quando o valor é olhado por habitante, o investimento per capita passou de R$ 90,54 para R$ 137,02 ao ano, um avanço expressivo, porém distante dos R$ 225 por habitante ao ano previstos pelo PLANSAB (Plano Nacional de Saneamento Básico) como o mínimo necessário para viabilizar a universalização.
Fazendo as contas em nível nacional, o Brasil ainda precisará aplicar cerca de R$ 430 bilhões em saneamento até 2033 — uma média de R$ 48 bilhões por ano, patamar que o país nunca alcançou em nenhum dos últimos exercícios fiscais.
A desigualdade regional continua sendo o maior gargalo
Os números nacionais escondem uma realidade bem mais desigual quando o recorte é regional. Das 5.570 cidades brasileiras, apenas três — Curitiba, Santo André e Juiz de Fora — têm 100% de coleta total de esgoto, segundo o “Ranking do Saneamento”, divulgado em março de 2026 pelo Instituto Trata Brasil.
Entre as 27 capitais do país, apenas cinco possuem ao menos 99% de cobertura no abastecimento total de água, e a média nacional do indicador é de 93,67% — mas com forte variação entre estados. Na coleta total de esgoto, apenas sete capitais superam 90% de atendimento; no tratamento de esgoto propriamente dito, também apenas sete capitais atingem ao menos 80%.
Alguns exemplos ajudam a ilustrar essa disparidade. Em Rondônia, cerca de 53,5% da população tem abastecimento de água, mas apenas 10,6% têm acesso ao esgotamento sanitário — o estado tenta viabilizar um leilão de R$ 8,5 bilhões para 40 de seus 52 municípios, marcado para setembro de 2026, mas o processo enfrenta um impasse político que ameaça sua realização.
Já São Paulo caminha na direção oposta: com o novo contrato firmado após a desestatização da Sabesp em 2024, os investimentos no estado cresceram 120%, e o governo estadual projeta antecipar a universalização para 2029 — quatro anos antes do prazo nacional. No período de 2024 a 2026, as metas do estado já superam 87% para abastecimento de água, 77% para coleta de esgoto e 71% para tratamento.
Nem todo leilão sai como planejado
O levantamento do Trata Brasil também expõe que o modelo de concessões, apesar de já consolidado, ainda enfrenta resistência em parte do país.
No Ceará, o leilão de concessão dos serviços de esgotamento sanitário de 127 municípios atendidos pela Cagece, dividido em cinco blocos regionais, teve apenas um bloco arrematado — o Norte-Litorâneo, vencido pelo Consórcio Ceará Saneamento. Os outros quatro blocos não receberam propostas e ainda aguardam nova data de licitação.
Em Goiás, o resultado foi ainda mais desafiador: das PPPs oferecidas pela Saneago, dois dos três lotes ficaram vazios, e o terceiro foi inabilitado por descumprimento de exigências do edital. Uma nova licitação no estado é esperada para o último trimestre de 2026.
Ainda assim, o cenário geral não é de estagnação. Segundo o Trata Brasil, os projetos já em curso somam mais de R$ 420 bilhões em investimentos, com potencial de beneficiar mais de 100 milhões de pessoas em 2.460 municípios brasileiros — e novos leilões, concessões e parcerias em estruturação podem adicionar outros R$ 58 bilhões a esse montante.
O que falta para acelerar o ritmo
Para Gesner Oliveira, professor da FGV-EAESP e sócio-executivo da GO Associados, o amadurecimento regulatório é uma das chaves para destravar o setor.
Ele destaca o avanço da atuação da Agência Nacional de Águas e Saneamento (ANA), que publicou nove normas de referência em 2024. Mas o próprio especialista reconhece que os desafios de governança local ainda são grandes: dos resultados da primeira Lista Positiva da ANA, apenas 29 das 82 agências reguladoras infranacionais cadastradas comprovaram aderência integral às normas federais — cobrindo pouco mais da metade dos municípios do país.
Luana Pretto, presidente-executiva do Instituto Trata Brasil, resume o momento de forma direta: os próximos anos serão decisivos para transformar os avanços regulatórios observados até aqui em resultados concretos para os milhões de brasileiros que ainda não têm acesso adequado à água tratada e ao esgotamento sanitário.
O que isso significa para empresas e indústrias
Para gestores industriais, engenheiros ambientais e empresas que dependem direta ou indiretamente da infraestrutura de saneamento — seja para captação de água, seja para destinação de efluentes — esse cenário de universalização parcial e desigual reforça um ponto importante: em boa parte do território brasileiro, a rede pública de esgoto ainda não é uma garantia.
Operações localizadas em regiões com baixa cobertura de coleta e tratamento seguem dependendo, na prática, de soluções próprias de tratamento de efluentes para operar dentro da legalidade — independentemente do avanço dos grandes contratos de concessão.
Acompanhar esse tipo de indicador não é curiosidade de mercado: é informação estratégica para qualquer empresa que planeja expansão, abertura de nova unidade ou avaliação de risco regulatório e ambiental em uma determinada região do país.
Fonte:
CNN Brasil — Saneamento avança após seis anos do marco legal, mas meta segue distante
Link: https://www.cnnbrasil.com.br/infra/saneamento-avanca-apos-seis-anos-do-marco-legal-mas-meta-segue-distante/
CNN Brasil — Com alta nos investimentos, governo de SP prevê universalização já em 2029
Link: https://www.cnnbrasil.com.br/infra/com-alta-nos-investimentos-governo-de-sp-preve-universalizacao-ja-em-2029/
CNN Brasil — Leilão de saneamento em Rondônia prevê R$ 8,5 bi e vira embate político
Link: https://www.cnnbrasil.com.br/infra/leilao-de-saneamento-em-rondonia-preve-r-85-bi-e-vira-embate-politico/
CNN Brasil — Única proposta em leilão de saneamento de Goiás é inabilitada
link: https://www.cnnbrasil.com.br/infra/unica-proposta-em-leilao-de-saneamento-de-goias-e-inabilitada/