O Dia dos Pais 2026, celebrado em 9 de agosto, chega ao varejo brasileiro com um cenário de expectativas mais moderadas do que em anos anteriores.
Segundo levantamento da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), divulgado nesta semana, a expectativa é de crescimento de apenas 0,7% nas vendas em relação ao ano anterior — o que, em valores absolutos, deve representar um incremento de R$ 567 milhões na receita do setor em comparação ao mesmo período do ano passado.
O crescimento contido reflete um consumidor que, mesmo diante de um mercado de trabalho aquecido, tende a retrair o consumo diante do cenário econômico mais desafiador.
Um retrato de duas forças em tensão
A pesquisa aponta um consumidor dividido entre duas forças que atuam simultaneamente: de um lado, a renda do trabalho segue relativamente resiliente; de outro, o orçamento familiar segue pressionado por dívidas, juros elevados e a percepção generalizada de preços altos.
Esse equilíbrio delicado explica por que, mesmo com uma data tradicionalmente relevante para o calendário promocional brasileiro, as projeções de crescimento seguem em patamar bem mais modesto do que o observado em anos de maior confiança do consumidor.
Segmentos específicos do varejo devem sentir esse cenário de forma distinta.
Farmácias e perfumarias despontam como os segmentos mais bem posicionados para o Dia dos Pais 2026, com expectativa de faturamento 3,7% maior do que no mesmo período do ano anterior, enquanto lojas de roupas devem registrar alta mais modesta, de 1,7%.
Em contrapartida, segmentos de bens duráveis enfrentam cenário de retração: móveis e itens de decoração devem registrar queda de 1,3% nas vendas, e eletroeletrônicos, retração de 0,8% — um sinal de que o consumidor está direcionando o orçamento disponível para presentes de menor valor unitário e maior carga simbólica, em vez de itens de ticket médio mais elevado.
Presentes afetivos: a mudança de comportamento que já não é mais tendência isolada
Para além dos números de faturamento projetado, o dado mais relevante para o planejamento comercial das marcas talvez esteja na mudança de comportamento do consumidor em relação ao tipo de presente escolhido.
Pesquisas do setor mostram que o consumidor brasileiro está cada vez mais interessado em presentes que carreguem significado, reforcem vínculos afetivos e reflitam a personalidade de quem presenteia e de quem recebe — em vez de simplesmente escolher o item de maior apelo comercial disponível na vitrine.
Esse movimento também é impulsionado por uma mudança mais estrutural nos próprios perfis de paternidade observados na sociedade brasileira, que passam a influenciar diretamente as decisões de compra: pesquisas recentes sobre o tema mostram que a forma como filhos de diferentes gerações se relacionam com seus pais hoje é mais diversa e menos padronizada do que há uma década, o que se reflete diretamente no tipo de presente escolhido — cada vez menos genérico e cada vez mais pensado para a relação específica entre quem compra e quem recebe.

Personalização como estratégia comercial concreta
Esse comportamento já se traduz em números concretos para fornecedores de itens personalizáveis. Projeções do setor de produtos personalizados apontam crescimento de ao menos 3,7% nas vendas até a semana do Dia dos Pais, puxado por itens como camisetas, canecas e kits temáticos, além da cadeia de insumos que sustenta essa personalização — embalagens diferenciadas, tags, adesivos e fitas decorativas, entre outros materiais que passaram a fazer parte da experiência de compra, e não apenas do acabamento estético do produto final.
Para lojistas e marcas, essa tendência reforça que investir em opções de personalização — seja por meio de gravação, estampa personalizada, embalagem exclusiva ou combos temáticos — tende a gerar diferencial competitivo relevante em uma data na qual o consumidor está mais disposto a pagar por significado do que por volume ou sofisticação técnica do produto.
A regionalização da data revela desigualdades de consumo
Levantamentos regionais realizados por federações estaduais de comércio também mostram como a data se comporta de forma distinta entre diferentes praças do país.
Em Fortaleza, por exemplo, levantamento da Fecomércio Ceará projeta movimentação de R$ 292 milhões no varejo local até o Dia dos Pais, com ticket médio estimado em R$ 268 por presente — valor bem superior ao observado em praças menores, como Santa Maria, no Rio Grande do Sul, onde o ticket médio projetado é de R$ 151, refletindo o ajuste do consumidor à realidade orçamentária local.
Apesar dessas diferenças regionais, um padrão se repete em praticamente todas as praças pesquisadas: promoções seguem como o principal fator de influência na decisão de compra para a maioria dos consumidores, à frente até mesmo do fator preço isolado — o que reforça a importância de campanhas promocionais bem estruturadas, e não apenas de descontos genéricos, para captar a atenção de um consumidor mais seletivo neste ano.
O que o varejo pode aprender com essa edição da data
Para lojistas que já se preparam para o Dia dos Pais e para as datas seguintes do calendário promocional do segundo semestre — Dia das Crianças, Black Friday e Natal —, o desempenho do Dia dos Pais 2026 funciona como termômetro relevante do comportamento do consumidor brasileiro para o restante do ano.
A combinação de crescimento moderado, forte preferência por presentes com significado afetivo e sensibilidade elevada a promoções sugere que estratégias comerciais baseadas exclusivamente em desconto agressivo tendem a perder espaço para abordagens que combinem preço competitivo com proposta de valor emocional mais elaborada — um recado que vale tanto para grandes redes varejistas quanto para lojistas de menor porte que competem por uma fatia de orçamento familiar cada vez mais disputada.
O calendário como termômetro para o segundo semestre
Especialistas em varejo costumam tratar o desempenho do Dia dos Pais como um indicador antecipado do comportamento do consumidor para as datas seguintes do calendário comercial.
Como a data movimenta valores expressivamente menores do que ocasiões como Natal, Dia das Mães ou Black Friday, ela funciona como uma espécie de “teste de temperatura” de baixo risco para marcas avaliarem, na prática, como o consumidor está reagindo a diferentes estratégias de precificação, comunicação e formato de oferta antes de comprometer orçamentos de marketing maiores nas datas de maior faturamento do ano.
Lojistas que acompanham de perto os resultados do Dia dos Pais — não apenas em volume de vendas, mas no tipo de produto, no ticket médio e no canal de compra escolhido pelo consumidor — tendem a chegar mais bem preparados às campanhas de outubro, novembro e dezembro, ajustando com antecedência o mix de produtos e a estratégia promocional ao comportamento real observado nesta primeira grande data do segundo semestre.
Fontes:
Diário do Grande ABC — FecomercioSP espera aumento de 0,7% nas vendas em razão do Dia dos Pais
Link: https://www.dgabc.com.br/Noticia/4337648/fecomerciosp-espera-aumento-de-0-7-nas-vendas-em-razao-do-dia-dos-pais
Terra — Dia dos Pais 2026: consumidores priorizam presentes afetivos
Link: https://www.terra.com.br/noticias/dia-dos-pais-2026-consumidores-priorizam-presentes-afetivos,e29713329bd7bd07de0c36ffc3ed221aik26niqv.html